quinta-feira, 22 de outubro de 2015

A tentativa de retorno à vida profissional

Seu Pinheiro sempre foi um ótimo negociante!
Antes disso, toda sua vida profissional estava ligada ao comércio. Primeiro, vendedor de uma loja em Madureira; depois, vendedor da antiga Ultralar; depois, Gerente de vendas da Ultralar. Por fim, se tornou representante de móveis e colchões.
Mas, um dos grandes sonhos do meu papi era abrir sua própria loja de colchões.
Após seus dois infartos (2004 e 2009), sempre o incentivamos a realizar seu sonho. Afinal, ele merecia!
E foi o que aconteceu em junho de 2013!!! Sonho do Seu Pinheiro realizado: Só Meninas Colchões!
Por que este nome? Coisas da nossa mami, Dona Luci. Seria uma homenagem às mulheres da sua vida: esposa, 3 filhas e 2 netas (naquela época).
Porém, sabíamos que meu papi não conseguiria, em um curto espaço de tempo, ter de volta a sua capacidade de gerir seu negócio. Mas a loja não podia ser fechada! Tínhamos certeza de que nosso papi precisava da loja!
Contratamos, então, uma funcionária. Mas quando o "dono do negócio" não está de frente, tudo fica mais complicado!
A funcionária não deu certo por vários motivos, dentre eles a falta de habilidade para lidar com público. Infelizmente, não conseguimos achar uma pessoa verdadeiramente responsável para tocar a loja e esta teve de ser fechada. As tentativas foram frustrantes e os gastos com a loja só aumentavam.
Doeu em nós, filhas, ter que ver o sonho do meu pai se acabar. E certamente doeu mais nele do que em nós.
Mas, tenho fé de que Deus não nos abandona. Afinal, Ele nunca nos abandonou durante todos esses meses.



Seu Pinheiro, meu papi, visitando sua loja 
(3 meses após o AVC)


Márcio (genro), Papi, Mami e Luciene (a primogênita)

O xixi no marrequinho ;)

É preciso deixar claro que, dentre algumas sequelas do AVC, as necessidades fisiológicas também podem ficar afetadas.
Com meu papi não foi diferente! Nos primeiros dias, semanas, tudo era na fralda.
Precisávamos ser realistas!!!
Mas... tudo vai seguindo o fluxo normal e não podemos nos afligir!
Na minha visita ao Rio, ainda no hospital, falei pra minha irmã assim: - Lu, a gente poderia colocar o patinho para o papai fazer xixi, né?
Ela me respondeu: - É verdade! Vou falar com a mamãe...
Eu complementei: - Ah é!!! É bom, porque eu não quero pegar no pinto do papai ihihihihihihih
Minha mami linda e maravilhosa chegou e assumiu seu posto de esposa dedicada e safadinha: colocou o pinto do Seu Pinheiro no patinho e o pediu para fazer xixi.
E lá veio a msg no whatzap: Papai fez xixi no patinho!!! :)
Fizemos mais uma festa!
Era mais uma conquista e isso o ajudava ainda mais na sua recuperação!!!
Como meu Tio Enilton (irmão do meu papi) falava: - Hoje o Ênio fez xixi no "marrequinho"!
Esta e outras conquistas foram fazendo crescer ainda mais minha esperança.
Hoje, mais de um ano após o AVC, o Seu Pinheiro é totalmente independente para fazer suas necessidades fisiológicas, assim como escovar os dentes, pentear o cabelo, se barbear, se vestir, dentre tantas outras coisas.






sexta-feira, 24 de julho de 2015

Reaprendendo o que já sabia...

Uma das coisas que o familiar ou amigo de uma vítima de AVC deve saber é: muitas coisas simples são "desaprendidas". E é preciso paciência para ensinar-lhes o que eles esqueceram.
Com meu papi não foi diferente.
Quando fui ao Rio visitá-lo e ficar com ele por alguns dias no hospital, me choquei com o fato de ele ter desaprendido coisas básicas, dentre elas: escovar os dentes.
Após se alimentar, eu perguntei pra ele: - Papi, o Sr quer escovar os dentes?
Ele respondeu com a cabeça que sim.
Então, dei-lhe a pasta de dente e fiquei segurando sua escova, para que ele apertasse o frasco e colocasse a pasta na escova.
Ele me olhou... olhou para o tubo de pasta de dente e levou-a à boca. Fiquei assustada!
Como meu pai, que me ensinou a escovar os dentes, tinha desaprendido algo tão simples?
Fiquei engasgada! Mas preferi ensinar-lhe com o mesmo amor que sempre me ensinou.
Peguei a minha escova e coloquei pasta. Fiz o mesmo com a escova dele.
Sentada à sua frente, eu disse: - Papi, eu vou escovar os meus dentes e o Sr vai escovar os seus, ok?
Comecei a escovar. Ele começou a escovar os dele, me imitando.
Fiquei feliz! Ele reaprendeu o que já sabia!
Então, percebi que eu tinha que ficar mais atenta.
Eu precisava estar em alerta para as inúmeras coisas simples que ele tinha desaprendido.
Eu precisava ficar disponível para ensiná-lo a aprender o que ele me ensinou um dia...

Ainda no hospital, meu chamego no meu papi lindo ;)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Os primeiros sons

Quando já estava no quarto, meu papi deu os primeiros sinais da fala.
Mais ou menos uns 10 dias após o AVC, o Seu Pinheiro tentou falar.
Minha mãe estava com ele no quarto quando ela perguntou algo pra ele e ele respondeu "simmmmm"!
Ela o perguntou outra coisa e ele respondeu "nãooooo"!
Quando recebi a mensagem pelo whatzap "papai falou!", nossa!
Este foi um dia que vai ficar marcado pra sempre como um dos mais emocionantes da minha vida.
Depois, minha irmã me ligou chorando, pois minha mãe o colocou para cantar "Como é grande o meu amor por você" ao telefone.
Conversando com a Neurologista do hospital, ela explicou que a área musical do cérebro não foi atingida, por isso ele canta com mais facilidade.
Com os primeiros sinais de retorno da fala, minha irmã Angela, que é fonoaudióloga, começou com os primeiros exercícios.
No início, a falta de concentração, uma das sequelas do AVC, dificulta bastante esses exercícios, já que o paciente tem que se esforçar para lembrar algumas palavras.
Hoje, março de 2015, meu papi ainda não fala com espontaneidade. Ele só fala por repetição, mas estamos chegando juntos lá!

Vídeo feito em 06 de julho de 2014.
Papi falando as primeiras palavras.


Mais uma evolução: do CTI para o quarto!

Após uns 10 dias no CTI, meu pai foi para o quarto e aguardava passar por uma pequena cirurgia: um desentupimento da artéria carótida.
Embora pequena, a cirurgia era extremamente delicada.
O cirurgião, um homem iluminado por Deus, nos chamou, eu e minha irmã (Luciene), em seu consultório para nos explicar os riscos dessa cirurgia.
Várias coisas ruins poderiam acontecer durante o procedimento, dentre elas, um novo AVC ou mesmo o óbito.
A decisão era nossa! Escolher "tentar" ou "perder"...
Na minha cabeça eu já tinha minha decisão: tentar!
Na cabeça da Luciene, também.
Perguntei para o médico o que ele decidiria se fosse o pai dele. A resposta? Sim, ele escolheria tentar.
Ahhhhhh! A decisão foi ainda mais fácil ;)
Tudo correu bem. O procedimento foi um sucesso!
E as orações contribuíam ainda mais para a recuperação do Seu Pinheiro!!!

Foto tirada logo após o procedimento.

No quarto, já começam os primeiros movimentos
para se virar e se acomodar melhor à cama.

Primeira semana pós-AVC

Na primeira semana pós AVC, a recuperação, embora lenta, é comemorada com cada simples avanço que meu fofo papi tinha!!!
Conseguir ficar sentado foi uma delas!
Minhas irmãs estavam o tempo todo lá no hospital, junto aos médicos para saber as notícias.
Uau!!! Papai conseguiu sentar hoje!
Na fisioterapia, que já começou quando ele estava internado no CTI, ele conseguiu sentar...
A vista direita, que ficou completamente apagada nos primeiros dias, já estava praticamente normal, após uns 5 dias. Ou seja, meu papi já conseguia "enxergar o mundo ainda mais bonito"!
Mas a fala, esta ainda não dava sinal de vida!
A parte fisiológica esta totalmente parada. Meu papi usava fralda todo tempo.
Para alimentar-se, ele conseguia levar os alimentos à boca sozinho. Mas, precisava de uma leve supervisão.
Enfim, os primeiros dias são realmente cruéis para um paciente com AVC. Mas... a melhora só estava começando.



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Os primeiros dias pós-AVC

Nos dois primeiros dias após o AVC, papi ficou à base de trombolítico.
Após pesquisas na net, vimos que o trombolítico, para fazer efeito, deve ser ministrado até 4 horas após o AVC.
Ficamos muito esperançosas, pois, do início do AVC até o primeiro atendimento hospitalar não levou mais do que 50 minutos. Glória!!! Papi estava salvo!
Mas, como com o Pinheiro tudo acontece, o coágulo no cérebro não dissolveu e permaneceu ali por alguns dias, levando-o a um quadro de "quase" AVC Hemorrágico.
Passaram-se os dias e após uma tomografia o coágulo havia se desfeito.
Agora, era necessário pensar na carótida esquerda entupida!
O procedimento para desentupi-la era colocar um stent. Porém, como o sangue estava muito fino por conta do trombolítico e dos demais remédios para dissolver o coágulo, este procedimento era arriscado.
Então, o negócio era esperar!!!
Enquanto nós esperávamos, eu, em plena Florianópolis, só ficava com o coração apertado!!!
Eu pensava que uma pessoa com quadro de AVC ficava inconsciente sobre o que estava acontecendo. Pura ilusão! Meu pai tinha plena noção que havia sofrido um AVC! Ele respondia sim e não com a cabeça, chorava por não conseguir falar, se emocionava quando via minha mãe!
Além das limitações da fala, movimentos, meu papi sofreu com as limitações relacionadas ao pudor. Urinava e evacoava na fralda e precisava se ajuda para se banhar.
A realidade de um paciente vítima de AVC é dura, mas precisa ser encarada como um processo natural pós-AVC!
Os primeiros dias são cruéis, mas nada melhor do que buscar histórias positivas sobre pessoas que superaram este problema!!!
Foi isso que eu e minhas irmãs fizemos: corremos atrás de informação.
Hoje, 54 dias após o AVC, papi já vai ao banheiro e ainda precisa de auxílio no banho, mas somente para sentar na cadeira higiênica.
Entretanto, é preciso todos saberem que um AVC de um paciente não é igual ao AVC de outro paciente. A recuperação depende de vários fatores, dentre eles, a força de vontade de quem sofre o AVC.

Foto tirada em 04 de julho de 2014, 14 dias após o AVC.
Papi dormindo como um anjo!